Esquiadores devem pagar multa por provocar avalanches
A procura de vítimas de avalanche é feita com equipamento especial e cães farejadores. (Keystone)Avalanches provocadas em pistas marcadas por esquiadores fora-de-pista desencadearam um debate sobre
responsabilidade e sanções para as pessoas que não respeitam as regras.
Segundo a polícia do cantão do Valais, seis delas foram levadas no início da semana à promotoria estadual por terem
supostamente causado avalanches que atingiram pistas em Anzère e Zermatt enquanto outros esquiadores as utilizavam.
"Trata-se aqui de enviar uma mensagem aos esquiadores que não respeitam outros de que podem ser processados",
declara o porta-voz da Polícia Cantonal do Valais, Jean-Marie Bornet.
Por pouco não ocorreu uma tragédia em Anzère, próximo da conhecida estação de esqui de Crans-Montana, em 27 de dezembro de 2009.
Nesse dia, três esquiadores fora-de-pista provocaram uma avalanche de 200 metros de largura que terminou cruzando a pista marcada e
ferindo duas pessoas. No total, 130 pessoas participaram das operações de resgate.
Uma mulher de 34 anos e dois homens, de respectivamente 42 e 32 anos, foram interrogados pelos agentes policiais e denunciados às
autoridades judiciais.
Durante um incidente similar em 31 de dezembro, um grupo de sete pessoas esquiando fora das pistas marcadas de Zermatt aparentemente
desencadeou uma avalanche na região do lago Grünsee e que também parou em cima de uma área marcada. Uma garota de 14 anos do
grupo foi ferida levemente.
Três adultos do grupo - um homem de 51 anos originário de Genebra, uma francesa de 44 anos e um rapaz de 19 anos - também foram
denunciados às autoridades.
Fortes quedas de neves nos últimos dias levaram as autoridades a alertar sobre o risco elevado de novas avalanches nos Alpes suíços.
Anualmente cerca de 130 delas são causadas por esquiadores e snowboarders na Suíça, resultando em uma média de 25 mortes.
No último domingo, sete pessoas morreram e cinco foram feridas nos Alpes bernenses quando uma primeira avalanche atingiu um grupo
de alpinistas esquiadores e uma segunda soterrou membros de equipes de resgates e outros esquiadores que estavam tentando libertar
os primeiros. Esse foi o mais grave acidente com avalanches na Suíça desde fevereiro de 1999.
" Sou contra a presença de polícia nas pistas "
Heinz Walter Mathys
Atos temeráriosHeinz Walter Mathys, advogado e presidente da Comissão Suíça para Prevenção de Acidentes em Esportes de Inverno, afirma que
qualquer pessoa considerada culpada de ter tido um comportamento irresponsável nas pistas de esqui podem e devem sofrer
alguma forma de processo civil ou criminal.
"As pessoas têm de saber que, sob leis suíças, qualquer pessoa que abandona as pistas marcadas e que causa uma avalanche
como essa pode ser acusada nos termos do artigo 237 do Código Penal por interferência da circulação pública", declara à swissinfo.ch
Na Suíça, a prática de esqui fora das pistas marcadas não é ilegal. Tanto as pistas como também as áreas livres fazem parte do domínio
público. Mas atos temerários, como ignorar sinais de alerta de avalanche e desencadear uma que possa atingir pistas marcadas, pode
levar a uma condenação, mesmo que não haja vítimas.
"O fato de criar o perigo já é suficiente e o sistema judiciário hoje é muito mais sensível a essas questões do que no passado", acrescenta
o advogado Pierre-André Veuthey.
Os chamados "freeriders" responsáveis por acidentes similares aos ocorridos em Anzère e Zermatt receberam multas de mil francos (U$ 970),
também sendo obrigados a pagar pelos prejuízos e cobrir os custos da operação de resgate - muitas vezes dezenas de milhares de francos
suíços. Esquiadores irresponsáveis também perderam seus passes de esqui ou foram incluídos em listas negras das estações.
Aplicação da leiMathys considera que as leis suíças são adequadas para sancionar pessoas que desrespeitam os alertas e colocam a vida de terceiros
em risco. Mas o problema, explica, é a sua aplicação e a possibilidade de pegar os culpados.
"É uma questão política. Queremos ter uma polícia com poderes de sanção ou não?", questiona-se. "Pessoalmente sou contra a presença
de polícia nas pistas. É possível agir contra aqueles que colocam outras vidas em perigo através da legislação civi, penal e administrativas."
Mas Franz Werro, professor de Direito de Privado da Universidade de Friburgo tem uma opinião diferente.
"É uma questão cultural", declarou à Rádio Internacional Suíça em Genebra. "Os suíços se chocariam de ver policiais nas pistas, mas talvez
seja necessário chegar a esse ponto."
A Suíça, assim como a França, Espanha, Áustria e Alemanha, rejeita a presença preventiva de policiais nas pistas de esqui. As exceções europeias
são a Itália e a Eslovênia, onde agentes dentro e fora das pistas têm o poder de aplicar sanções verbais e multas aos praticantes de esportes
de inverno que colocam outras pessoas em risco.
"Mas, afinal, não é possível impedir pessoas de sair das pistas marcadas", diz Guido Guidetti, chefe do grupo de segurança de montanha em
Villars, ao jornal 24 Heures.
"É possível fechar uma espaço colocando barreiras, mas alguém sempre irá tentar transpô-las. A única arma disponível nas estações de esqui
é a prevenção."
Yves Jacquier, diretor da companhia de teleférico Télé Anzère também vê a prevenção como solução para o problema, mas concorda que não é fácil.
"Nós apenas podemos informar as pessoas e dissuadi-las quando é perigoso, mas nossos meios são limitados em comparação com os dos
fabricantes de equipamentos de esqui, que utilizam a neve para vender às pessoas ideias como a da liberdade", analisa.
in swissinfo.ch
Exemplo de uma avalanche provocada
CUMPS FILIPAO
