«Jesus no Benfica? Foi feita justiça a um grande treinador» - Manuel CajudaManuel Cajuda aceitou o desafio de dar uma entrevista diferente. Desta vez, o treinador do Sharjah, dos Emirados Árabes Unidos, responde às perguntas dos leitores de A BOLA.pt. Chegaram centenas à redacção. Nem todas puderam ser escolhidas. A todas Cajuda respondeu com um sorriso. Voltando a dizer que é benfiquista, o técnico confessou estar a vibrar com as águias esta temporada.
- O que sente quando vê o Jorge Jesus com o sucesso que está a ter no Benfica. Sente pena de não estar lá ou sente-se contente como os milhões de Benfiquistas?
Mário Pinto, Benfica
- Sinto que foi feita justiça a um grande treinador do futebol português e sinto que o Benfica tem, esta época, grandes condições para ser campeão. O sucesso de Jorge Jesus é o sucesso de um treinador que trabalhou para isso, durante muitos anos e que agora está a ser recompensado por isso. Não posso dizer que tenho pena de não ser o treinador do Benfica, porque o Benfica está a ganhar, está a entusiasmar e a confirmar-se como grande candidato ao título. Noutros anos é que podia sentir pena de não ser treinador do Benfica, quando vi colegas meus no clube, pouco identificados com a realidade nacional cometer erros que eu não cometeria. Nessa altura, sim, tive pena de não ser treinador do Benfica. Porque eu sentia que podia fazer melhor. Agora, o Benfica está bem e tem um grande treinador. E sinto-me contente com o sucesso do Benfica, claro. E também lhe digo que, há uns anos atrás, deitei pela janela fora, a possibilidade de treinar o Benfica. Porque não gostei da maneira como a abordagem me foi feita. Estava no hotel, em estágio com a minha equipa e uns emissários do Benfica pediram para subir ao meu quarto, às três da manhã, colocando-me a hipótese de vir a ser o treinador do Benfica. Não aceitei. E continuei a ser o mesmo treinador. Assim como deitei fora a possibilidade de ser treinador de um outro grande clube português, porque me recusei a sair de minha casa de Braga para ir a um jantar com o presidente desse clube, jantar para o qual não tinha sido previamente convidado. Entendi que se quisessem falar comigo, devia ser ele a vir ao meu encontro e não o contrário. Portanto, que fique claro, de uma vez por todas. Nunca me deixarei cegar pela ambição de treinar um dos maiores clubes do futebol português. Nenhum clube, nenhum presidente, mudarão a minha personalidade.
- Qual foi para si o pior presidente que teve? E conte uma das histórias por que passou.
João Grade, 29 anos, Torres Vedras, Benfica
- Prefiro dizer que tive grandes presidentes, durante a minha carreira, e tive, também, grandes desilusões. Exactamente por terem sido os piores presidentes que apanhei, não gostaria de lhes dar essa publicidade, porque, sinceramente, acho que não a merecem. Foram poucos, talvez dois deles, que gostaria que não se tivessem cruzado comigo.
- De entre todos os clubes por onde passou, há algum que se arrependa de ter treinado? Porquê?
Anabela Soares, 34 anos, Faro, Belenenses
- Nunca me arrependi de nada. Mas acho que posso dizer que apanhei projectos que foram arriscados e que foram quase decisões de insensatez minha aceitá-los. Já falei do Belenenses, porque era muito arriscado treinar o clube, naquelas condições, o Beira-Mar também foi um risco enorme. Mas não me arrependo de ter treinado esses clubes. Sinto grande carinho por eles, o Belenenses é um histórico do futebol português e o Beira-Mar é, claramente, um clube de primeira divisão. Tem dificuldades, mas tem história. Felizmente, não tive, em toda a minha carreira, muitos casos de insucesso desportivo. O Belenenses e o Beira-Mar foram, claramente, duas excepções que confirmam uma regra de sucesso na minha carreira.
«Seria grande orgulho treinar o Sporting» - Manuel CajudaManuel Cajuda foi apontado como sucessor de Paulo Bento no Sporting. Ficou nos Emirados Árabes Unidos, mas honrado com as notícias. Muito haveria a perguntar-lhe. Os leitores de A BOLA colocaram questões e o técnico, sem papas na língua, satisfez-lhes a curiosidade. Viaje com os leitores e Cajuda numa viagem pelos clubes que o algarvio treinou...
- Tendo um currículo cheio de sucesso, a pessoa bestial que é, e por isso sendo sempre alvo de grandes elogios por onde passa, sente que não lhe é reconhecido o devido valor por parte dos "Grandes" de Portugal? Ou melhor, não sente que está na hora de Manuel Cajuda treinar um Porto, Sporting ou Benfica?
Jorge Nuno Costa, 20 anos, Leça da Palmeira, Leça Futebol Clube
- Para mim os Grandes de Portugal são os clubes que treinei. Esses são os meus Grandes de Portugal, porque foram aqueles que apostaram em mim. E, em certas situações, foram mesmo Grandes. Os outros são clubes, maiores ou mais pequenos, são os clubes que eu nunca treinei. O que mais me interessa não é o valor que alguns clubes já me podiam ter dado e não deram. Interessa-me, sobretudo, o valor que me foi dado pelos clubes que me contrataram. Digo uma coisa. Posso acabar a minha carreira de treinador sem chegar ao Benfica, ao FC Porto ou ao Sporting, que isso não vai deixar nenhuma mancha no meu currículo. Até porque já tive a possibilidade de treinar esses clubes, e isso sim, é que conta para mim. E conta também saber que foi a minha maneira de ser que adiou sempre esse desfecho. Não sei se está na hora de treinar um desses clubes que citou. Para mim, está na hora de treinar o Sharjah e se algum dia, um desses clubes, achar, de novo, que está na hora de eu ser o seu treinador, teremos de esperar para ver. Porque, existe também a possibilidade de eu achar que já passou a hora.
- Depois de levar o Vit. Guimarães da II Liga à Liga dos Campeões, sentiu-se injustiçado pela forma como saiu?
João, Guimarães
- Tenho enorme respeito pelos adeptos do Vitória de Guimarães, especialmente por aqueles que reconhecem o trabalho que realizei no clube. Cheguei ao Vitória num dos momentos mais dramáticos da história do clube, não apenas consegui evitar que o Vitória descesse à Segunda B, como ainda consegui ajudar o clube a regressar à Liga Sagres. No ano seguinte, fiz a melhor classificação de sempre do Vitória no campeonato e, de repente, muita gente esqueceu tudo isso. Espero que sejam felizes, espero que o clube tenha sucesso. Não gosto de ingratidão, por isso, não serei nunca ingrato com o Vitória, que me deu algumas das maiores alegrias desportivas da minha vida. Gostava, no entanto, que as pessoas não esquecessem facilmente o que fizemos em conjunto. Claro que me senti injustiçado, mas não quero aprofundar muito o assunto.
- Qual o seu sentimento em relação ao Vit. Guimarães? A frase que proferiu: "Sou do vitória até morrer" mantém-se?
Ana Lúcia Lourenço, 22 anos, Guimarães, V. Guimarães
- Não sou hipócrita. Nunca fiz essa declaração para sair bem na fotografia em Guimarães. As pessoas que conhecem sabem que não preciso de truques para estar no futebol. Eu disse o que me ia na alma. E sim, serei do Vitória até morrer. Como serei dos outros clubes por onde passei, até morrer. Todos eles me deram alegrias que jamais esquecerei. Todos eles me ajudaram a ser o treinador que sou. Todos, sem excepção. Serei do Vitória até morrer, apesar da incompreensão de alguns adeptos e do comportamento de algumas pessoas. Gosto muito do Vitória, gosto da cidade. É um clube especial e será sempre, porque tem adeptos especiais. Como a Ana Lúcia. É muito bonito poder dizer até morrer que sou do Vitória.
- Num ano em que se falou do interesse do Sporting na sua contratação, não acha que a sua ligação sentimental ao Benfica lhe prejudicou a sua carreira, nomeadamente em Portugal?
Nuno Torres, Lisboa, Sporting
- Acho piada ao argumento de que não posso ser treinador do Sporting ou do FC Porto, porque sempre me assumi como benfiquista. Quando o Jesualdo Ferreira chegou ao FC Porto, também era portista desde pequenino? E ganhou três títulos consecutivos. E ganhou bem, porque é um treinador competente. E agora, ponho a questão do seguinte modo. Acho que todos reconhecem que o actual treinador do Benfica é menos benfiquista do que eu. E, no entanto, é ele o treinador do clube e não eu. E bem, porque está a confirmar o seu valor e a realizar um trabalho de grande valia. A ligação sentimental ao Benfica não deve prejudicar a minha carreira, porque todos sabem que sou profissional. Sou dos treinadores em Portugal, fora dos três maiores clubes do nosso futebol, com mais vitórias sobre o Benfica. No Braga e no Vitória consegui melhores classificações que o Benfica. Onde é que está a dúvida? Sou profissional, sou treinador e não sinto que o meu benfiquismo me possa roubar uma parte do meu profissionalismo. Não aceito que se diga que não posso treinar o FC Porto ou o Sporting por causa do meu benfiquismo. Porque não é isso que está a ser julgado.
- Teve alguma proposta do Sporting para substituir Paulo Bento? Trocaria o Dubai pelo Sporting Clube de Portugal?
José Vale, Braga, 16 anos, Sp. Braga
- O que se passou, durante essa fase, em que foi noticiado o alegado interesse do Sporting em mim, vai permanecer para mim e para um círculo restrito de pessoas que sabe o que se passou. Colocando-me a pergunta desse modo, se troco o Dubai pelo Sporting, digo-lhe que nunca poderei tomar essa decisão sozinho. Porque, mesmo que essa possa ser a vontade do Sporting e a minha, existe uma terceira parte e existe um contrato com essa parte. Mas não fujo à sua questão. Seria, para mim, motivo de grande orgulho, um dia, ser treinador do Sporting. Grande clube, grande equipa e possibilidade de lutar por títulos. Só de se ter falado dessa possibilidade de eu vir a ser o treinador do Sporting, isso dignificou-me como treinador e honrou-me como homem. Mais do que isto não digo, caso contrário, acham que estou a oferecer-me ao Sporting. E eu, mesmo que quisesse, não podia fazê-lo, porque tenho contrato com o Sharjah e estamos, actualmente, a discutir a possibilidade de o renovar.
- Deu-lhe algum gosto especial treinar a Naval? O que sentia ao ver os miúdos das camadas jovens a treinarem-se no pelado sem qualquer tipo de condições?
Rafael Pedrosa, 23 anos, Figueira da Foz, Naval
- Claro que senti um gosto enorme em treinar a Naval. Trata-se de um bom clube, de boa gente, com um presidente de quem sou amigo, que me tratou bem. Acompanho o seu crescimento, desejo que se mantenha a crescer, porque é um clube importante da região Centro do país. A descentralização do futebol, em Portugal, passa muito por clubes como a Naval. O que eu sentia ao ver os mais jovens a treinar sem grandes condições, era o mesmo que sinto, ainda hoje, quando vejo que o meu país ainda não deu um salto qualitativo ao nível das condições do treino e até da prática do futebol. Estamos sempre a dizer que somos um país do futebol, mas depois não oferecemos aos nossos jovens, boas condições para que eles possam praticar o futebol convenientemente. Não há equipamentos, campos pelados, treinadores sem formação e a pressão dos pais. Não se pode ter bons prédios, quando os caboucos são mal feitos. Um país do futebol é a Inglaterra, onde os campos de futebol multiplicam-se e a prática do futebol está massificada, porque existem muitos campos de futebol. Cada localidade tem vários campos de futebol. Isto sim, é um país do futebol.
- O que falhou quando treinou o Belenenses? Acredita que um dia voltará a treinar o clube?
Mário Serra, 42 anos, Aveiro, Belenenses
- O Belenenses é um dos clubes em Portugal a que dificilmente se diz que não. E justamente porque não é fácil dizer que não ao Belenenses é que aceitei treinar no clube em condições muito desvantajosas. Quando cheguei ao Belenenses, identifiquei os problemas do clube e percebi logo que estavam reunidas todas as condições para tudo correr mal. Mesmo assim, fui. Foi um erro de gestão de carreira, mas fi-lo conscientemente, porque era o Belenenses. Sempre sonhei treinar o Belenenses. E o que é verdade é que hoje posso dizer que fui treinador do Belenenses. E isso é motivo de orgulho. Acredito que um dia será possível regressar ao clube, se for esse o interesse dos dirigentes do clube e se eu estiver em condições de aceitar esse regresso. Porque, agora, não voltaria a cometer o mesmo erro, porque já fui treinador do Belenenses, já não precisaria de correr atrás desse objectivo. Quase posso dizer que tenho uma dívida de gratidão que gostaria de pagar ao Belenenses.
- Faz parte dos seus planos regressar ao Olhanense?
Pedro Sancho, 30 anos, Olhão, Olhanense
- Conseguem imaginar o que seria, para mim, voltar a treinar o Olhanense? Não conseguem. O Olhanense, para mim, é muito mais do que um clube. É a minha ligação às origens, à minha terra, à minha infância, aos meus amigos, à minha família. Faz parte dos meus planos regressar a Olhão, para treinar o Olhanense. Mas não agora. Olhe, do mesmo modo que o José Mourinho diz que gostava de terminar a carreira a treinar a selecção, eu não consigo imaginar melhor final de carreira para mim, do que treinar o Olhanense.
- Porque apurou o Sp. Braga para a Taça UEFA e depois não continuou no clube?
Tomás Miguel Pereira
- Porque senti que o mais importante estava alcançado, que era colocar, de novo, o Braga, no contexto europeu. Vinte anos depois, o Braga estava na Europa. Isso era mais importante do que o Manuel Cajuda ir à Europa. Teria gostado de estar com o Braga nas competições europeias, mas comecei a perceber que talvez não fosse o melhor para o clube, pois entendi os sinais que eram emitidos a partir do interior do clube. Arriscava-me a ser uma parte do problema em vez de ser uma parte da solução. Para mim era mais importante a ascensão do clube do que a minha ida à Europa. Felizmente, o clube seguiu o seu caminho e cresceu. Fui um dos seus principais iniciadores desse crescimento e isso basta-me. Sai do clube, deixando-o na Europa, vinte anos depois.
- Que recordações guarda dos tempos do Portimonense, dos portimonenses e de Portimão?
Dário Guerreiro, 20 anos, Portimão, Portimonense
- Foi a primeira equipa que treinei na primeira divisão e por isso, guardo grandes recordações, de um clube que queria crescer e que eu ajudei a ganhar uma dimensão diferente. E guardo a recordação de um grande dirigente, o presidente Manuel João, talvez o homem que tornou o clube num farol do desporto algarvio. Guardo a recordação de uma carreira ainda numa fase inicial, mas que me deu a expressão suficiente para me tornar num treinador de nível nacional e não apenas uma pequena referência do futebol algarvio. E sabe, tudo o que é Algarve na minha carreira, está num cantinho muito especial das minhas memórias, porque eu nunca esqueci que sou do Algarve, sou mouro, como costuma dizer-se. Como eu tenho saudades desse Portimonense.
- Aconteceu-lhe algumas vezes na sua carreira, ao acompanhar o percurso de Porto, Benfica ou Sporting, imaginar-se no lugar do respectivo treinador e pensar: "Eu fazia melhor!"?
Luís Miguel Duarte, 53 anos, Porto, FC Porto
- Várias vezes. Até cheguei a dizer, em várias ocasiões, que por metade do preço eu fazia igual ou melhor. Mas isso é normal. Também acredito que muitos dos meus colegas tivessem achado que podiam fazer melhor do que eu, nos vários clubes onde estive. É um desafio. Fazer melhor do que eu em Leiria, onde consegui a melhor classificação de sempre, e já depois do José Mourinho, fazer melhor do que eu no Marítimo, onde alcancei a melhor classificação dos últimos quinze anos, deixando o clube na Europa, fazer melhor do que eu e o Jesualdo no Braga, onde ambos conseguimos a melhor classificação de sempre do clube e mais do que uma vez e também no Vitória de Guimarães, onde coloquei o clube, pela primeira vez, à porta da Liga dos Campeões e igualando a melhor classificação de sempre. É um desafio para os outros treinadores, como será para mim, um dia que possa treinar um dos maiores clubes de Portugal. Porque, nesses clubes, para ser tão bom ou melhor do que os outros, tenho de ganhar tudo o que houver para ganhar. Só assim é que faz sentido treinar o Benfica, o FC Porto ou o Sporting. Tem de ser para ganhar tudo, pelo menos, em Portugal.
«A corrupção é transversal...» - Manuel CajudaHá ou não há corrupção no futebol português? Os leitores perguntaram e Manuel Cajuda respondeu. Sem saber de casos concretos, o popular treinador tem as suas desconfianças...
- Certamente sentiu-se muitas vezes prejudicado pelas arbitragens. Conte-nos qual foi a pior arbitragem que apanhou e se sentiu que estava a ser deliberada...
João Grade, 29 anos, Torres Vedras, Benfica
- Durante a minha carreira, senti, como todos os treinadores, que fui prejudicado e que fui beneficiado por erros de arbitragem. Eu gosto de acreditar nas pessoas, gosto de acreditar que, no limite, é tudo uma questão de competência ou incompetência. Há bons árbitros e maus árbitros. E há, de facto, situações em que somos quase empurrados pelas evidências, para a desconfiança. Continuo a acreditar nas pessoas e sobretudo aceito que ser árbitro não é fácil. Mas também se me dissessem que uma arbitragem tinha prejudicado a minha equipa deliberadamente, eu não ficaria chocado.
- Durante a sua carreira alguma vez entendeu haver casos de corrupção no futebol português ou temos uma liga transparente? Se sim julga que há apenas em favor dos clubes grandes ou também em favor dos clubes pequenos? Há arranjos com árbitros e entre clubes?
Nuno Pereira, 20 anos, Braga, Benfica
- O mundo vive rodeado de corrupção. O futebol não é diferente da política, da economia, da alta finança, do mundo dos negócios. Estamos cercados de corrupção. Acredito sinceramente que ela existe no futebol, em Portugal e no Mundo. Mas é muito difícil de provar. E a corrupção é transversal ao futebol, desde os clubes maiores aos mais pequenos. Aliás, a corrupção é mais fácil de existir nos pequenos clubes, em competições de médio interesse, porque não há tanta atenção mediática. Nunca presenciei um caso de corrupção, de outro modo teria informado as autoridades. Mas, claro, não sou anjinho, sei o que se passa, ou pelo menos, sei aquilo que muitos julgam saber que se passa.
«No Dubai os jogadores não discutem. Ouvem e tentam aplicar» - Manuel CajudaManuel Cajuda vive no Sharjah, dos Emirados Árabes Unidos, mais uma experiência no estrangeiro. Passou pelo Zamalek do Egipto, mas vive uma realidade diferente num clube quase amador. Os leitores fizeram perguntas ao treinador. Ele respondeu. Veja aqui o resultado.
- O que acha do campeonato no Dubai? As equipas mais fortes daí tinham lugar na liga portuguesa? E a que nível? a qualidade de vida no Dubai é boa como dizem e a integração nessa cultura é fácil ou difícil?
Bruno Pereira
- No Dubai, o profissionalismo só existe há dois anos. Os jogadores verdadeiramente profissionais, nos Emirados Árabes Unidos, são os estrangeiros que se contratam e que apenas se dedicam ao futebol. Mas, também é preciso notar que o profissionalismo é quase impraticável nestes sítios. Pelo menos, na maior parte do ano. Muitas das nossas unidades de treino são realizadas às nove da noite, porque durante o dia as temperaturas oscilam entre os quarenta e os cinquenta graus. É impossível adequar o organismo humano, em esforço, a estas temperaturas. Treinamos todos os dias, ou quase todas as noites, mas, de facto, este é um profissionalismo diferente. Para ter uma ideia, a minha equipa tem nove polícias, que trabalham das sete da manhã às duas e meia da tarde. A qualidade de vida é óptima, no Dubai, o luxo é enorme e um estrangeiro, sobretudo se vier da Europa, confronta-se com uma qualidade de vida fantástica. A integração na cultura local tem sido fácil, porque não trazia preconceitos em relação à cultura, aos costumes e à religião. Não vim para impor nada, vim para ajudar o Sharjah a crescer e a tornar melhores os seus jogadores. Gosto da cultura, é diferente, mas sou muito bem tratado, as pessoas gostam de mim e eu retribuo o melhor que posso.
- Qual o maior desafio, em termos de treino - além da língua - que se encontra quando se abandona a Europa para ir treinar nas arábias?
Mauro Gonçalves
- O maior desafio, repito, é adequar os nossos conhecimentos a um meio específico de treino e de jogo completamente diferente do que estamos habituados. Treinar à noite, jogar à noite, muitas vezes em condições extremas de esforço, um calor insuportável. Tudo isto altera o nosso quadro mental sobre a aplicação da metodologia de treino. É curioso, tenho discutido isso com os meus colaboradores, apesar do ambiente geral de um profissionalismo ainda a gatinhar, o que é certo é que a metodologia de treino é muito importante, para criar efeitos positivos no treino e no jogo que atenuem as condições adversas que os jogadores enfrentam. Tem sido muito educativo e até experimental, em algumas situações, o tempo que levamos de permanência no Dubai. E que tem exigido de mim e dos meus colaboradores um trabalho que vai muito para além da preparação táctica da equipa e da operacionalização do treino e do nosso modelo. Sinto-me um estudante da ciência do treino e o Dubai tem sido o meu laboratório.
- Como se adaptou e como vive num país que em termos religiosos, culturais e sociais se distancia tanto do nosso? Quais as principais diferenças, também a nível futebolístico, entre Portugal e os Emirados Árabes Unidos?
Teresa, 28 anos, Viana do Castelo, Benfica
- Sinto-me muito bem no Dubai, como disse. Estou a gosto, os jogadores respeitam-nos, a mim e aos meus colaboradores e desde logo essa é a primeira diferença em relação ao futebol português em particular e aos ambientes de maior profissionalismo em geral. Os jogadores não discutem as opções dos treinadores. Os jogadores aceitam a existência de uma hierarquia, aceitam que no balneário existe um chefe e que o chefe é o responsável por todas as decisões. As boas e as más. Isto por um lado é cómodo para o treinador, mas pode ser traiçoeiro, porque nos dá a ilusão de que está tudo bem, quando pode não estar. Como treinador sempre defendi uma liderança partilhada com limites, porque num balneário, com um grupo tão heterogéneo de pessoas não se partilha a liderança. Mas a liderança não nos deve levar a uma redoma, de onde apenas saímos para dar ordens. É preciso escutar as pessoas, é preciso ouvir o que elas têm para dizer. Porque isso permite-nos conhecê-las melhor. E quanto melhor for o conhecimento que um treinador tiver sobre um jogador e a sua personalidade, melhores decisões vai tomar no futuro, relativamente a esse jogador e mesmo em relação ao grupo. No Dubai, os jogadores não discutem, ouvem e aplicam. Quero dizer, na maior parte das vezes, apenas tentam aplicar. Essa é uma diferença enorme em relação a Portugal e ao profissionalismo. De resto, o clima condiciona tudo o resto.
- É reconhecido principalmente por quem consigo privou que é um homem comunicativo, brincalhão mas também prudente. Estando tão longe do seu outro mundo (não o do futebol) de que mais sente saudade e se pudesse levava para aí?
Fernando Manuel Domingues, Figueira da Foz, 46 anos, Naval e Benfica
- Tenho saudades de quase tudo e de quase nada. Isto não é filosofia barata. Claro que tenho saudades dos meus filhos, dos meus netos, dos meus amigos. A minha mulher está comigo aqui, como sempre esteve em todo lado e toda a vida e sempre estará. Mas sim, falta-me o convívio com as pessoas de quem mais gosto. Tenho os meus colaboradores, o Nascimento, que não é um colaborador, eu costumo dizer que já é uma prótese que implantei na minha vida, porque não vou a lado nenhum sem ele, o Floris, o Fernando, um jovem treinador que conheci no Vitória de Guimarães e que vem da Universidade, o que demonstra que tenho sempre o cuidado de me actualizar como treinador e atento aos jovens valores que a universidade lança para o mercado de trabalho. Mas, depois, não tenho saudades de quase nada, especialmente do futebol português. Não tenho saudades dos truques, das pessoas sem carácter, da falta de escrúpulos, dos negócios paralelos que enfraquecem os clubes. E sobretudo não tenho saudades da incompreensão das pessoas e da ingratidão. O modo como eu sai do Vitória ainda está demasiado fresco para mim, para ter saudades do futebol português. Se eu pudesse trazia os meus amigos, todos para o Dubai, porque é um sítio espectacular para se viver.
- Em Portugal brinca dizendo que é marroquino. Nas arábias diz que é sueco? Consegue utilizar o seu humor no Dubai? Já viveu alguma situação caricata por causa das piadas que diz? Qual?
Francisco Torres, 39 anos, Madrid, V. Setúbal e Real Madrid
- Ainda não tenho nenhum episódio mais caricato, porque tenho sido muito cuidadoso na forma como me relaciono com as pessoas. As pessoas são muito simpáticas e por isso retribuo com simpatia. Mas sempre com muito cuidado, porque são pessoas de enorme sensibilidade e qualquer coisa mal dita ou dita num contexto diferente do correcto, pode ser a morte do artista. Sou português e digo com muito orgulho que sou português. E estou no Dubai para realizar um bom trabalho, qualificado, que a generalidade das pessoas daqui não conseguem fazer porque não têm a experiência de treino e de jogo que eu tenho. Saio, divirto-me, relaciono-me, mas sempre com um cuidado extremo para não dizer ou fazer nada que possa embaraçar-me ou criar mal-entendidos.
«Podia ter sido médico. Agrada-me ajudar pessoas» - Manuel CajudaOs leitores de A BOLA.pt mostraram originalidade nas perguntas feitas a Manuel Cajuda. Saiba aqui um pouco mais sobre um dos melhores treinadores portugueses.
- Se não fosse treinador que profissão teria escolhido?
Nuno Isidoro
- Teria sido engenheiro ou médico. Especialmente médico, porque agrada-me a ideia de ajudar pessoas.
- Qual foi a situação mais caricata que aconteceu na sua carreira enquanto treinador?
Tiago Silva, 17 anos, Oeiras, Benfica
- Mais do que caricata, foi chocante. Um director de um clube ter alegadamente pedido dinheiro a um jogador, por o ter ajudado a fazer contrato com esse clube. Uma espécie de comissão. Incrível. Mas há gente desta no futebol português.
- O que considera mais admirável no povo português?
Miguel Coelho, 21 anos, Lisboa, Sporting
- O saber sofrer em silêncio. Tanta pobreza que existe neste pais, tanto sofrimento, mas, ao mesmo tempo, tanto silêncio. E uma das coisas que destaco no povo português, não tanto pela positiva, é a sua enorme tolerância com a mediocridade e o chico-espertismo. Gostaria que o povo português fosse menos tolerante com os medíocres, com os corruptos e com as pessoas que vivem dos truques para enganar os outros.
- De entre todas as pessoas que conheceu no Mundo do futebol, qual foi a que mais o marcou e nunca esquecerá?
Ana Maria Oliveira, 31 anos, Macau, Sporting
- Destaco duas pessoas. O Carlos Silva, que foi meu treinador no Farense. Aprendi com ele imenso e o seu humanismo marcou-me imenso. E depois o Mladenov, um treinador muito conhecedor e muito adiantado para a sua época. Há trinta anos atrás era um mestre. Era um cientista do treino. Fui seu jogador e seu adjunto. Agora está na moda o bloco baixo, o bloco médio e por aí fora. Há trinta anos atrás, o Mladenov falava-me do “paquetá” e eu sem perceber nada, porque era uma palavra búlgara. “Paquetá” para cima, para baixo. Era o bloco. Aprendi imenso com ele. Um dia, num estágio, ao almoço, um funcionário do Farense agrediu um jornalista. Grande sururu e o velho, de repente, leva as mãos à cabeça e começa a gritar, que lhe doía muito, que lhe doía imenso. Peguei nele, ajudei-o a ir para o quarto, muito cambaleante e assim que chegámos ao quarto, é ele que me empurra para o seu interior e me diz : «Manuel, não me dói nada. Nós não vimos nada do que se passou lá em baixo. Não estávamos lá, não vimos nada. Se querem dar cabo do futebol e da imagem do clube, nós não temos nada a ver com isso». Aprendi imenso com ele.
«O Mundo precisa de figuras como João Paulo II» - Manuel CajudaCatólico, Manuel Cajuda confessa querer saber mais sobre o Islamismo. Não pensa converter-se, mas tem o Alcorão na mesa de cabeceira. O técnico diz aos leitores de A BOLA que futebol é futebol, religião é religião. Ou seja... nada de misturas.
- Qual a personalidade Mundial que mais gostaria de conhecer? E o que lhe diria?
Maria Gonçalves, Lisboa, 31 anos, Benfica
- Teria gostado de conhecer o Papa João Paulo II. Admirável personalidade. Se pudesse dizer-lhe alguma coisa, pedia-lhe que não morresse. O Mundo precisa muito de figuras como o Papa João Paulo II. E também tenho uma profunda admiração por Gorbatchov. É verdade que abriu a caixa de Pandora e o mundo está diferente e até mais perigoso. Mas foi a iniciativa de um homem e as suas convicções que permitiram a mudança.
- Acredita em Deus ou usa mensagens espirituais para motivar os jogadores?
José Pedro Pinto, Algés
- Acredito em Deus, mas não misturo as coisas. Deus não tem clube. E as mensagens para motivar os jogadores não passam pelo espiritualismo. Passam muito pelas mensagens certas para os motivar e para os levar a um rendimento melhor. Não meto Deus ao barulho. Não sou Jesus. Estou a brincar…
No Sharjah teve contacto com o mundo islâmico. Pondera procurar saber mais sobre o islamismo e como encararia um possível de convite para aceitar a religião islâmica, como aconteceu recentemente com Abel Xavier?
Imran Mahomed Makda, Maputo (Moçambique), 27 anos, Sporting
- Não está nos meus planos aderir ao islamismo. Mas tenho uma natural curiosidade em saber mais coisas sobre esta religião. Já tenho na minha cabeceira um exemplar do Alcorão. Não estou a pensar em mudar de religião, mas tenho uma curiosidade histórica e também profissional, porque isso pode permitir-me conhecer melhor o ambiente que me rodeia, os jogadores que treino. Tudo é conhecimento e o futebol, hoje em dia, resulta do domínio desse conhecimento. O futebol não tem apenas duas dimensões: a técnica e a táctica. É muito mais do que isso. Tem sido gratificante para mim, este contacto com o mundo islâmico e já mudei algumas ideias em relação ao islamismo, ou melhor, em relação à fé islâmica. Há uma tolerância enorme no exercício dessa fé e uma paz interior, nas pessoas, que as leva a contentar-se com o que têm. É um mundo menos materialista, apesar do Dubai ser uma criação do homem, destinada ao luxo e às grandes fortunas.
Cajuda elogia Bruno Alves, Saviola e João Moutinho, mas o melhor é Alan...Os leitores de A BOLA.pt quiseram saber o que pensa Manuel Cajuda do campeonato português; quem são os melhores jogadores; qual o onze da sua carreira; etc, etc. Leia as perguntas e as respostas.
- Concluída a primeira volta do campeonato, que clube apresenta mais possibilidades de chegar ao título?
Joao Vieira, 20 anos, Agualva Cacém, Benfica
- Fácil. Braga e Benfica são, nesta altura, os principais candidatos ao título. Foram as melhores equipas da primeira volta, estão à frente do campeonato e jogam bom futebol. O FC Porto vem a seguir, mas, na prática, são quase oito pontos que tem de recuperar. Os quatro que tem de atraso para o Benfica e também para o Braga. Não é apenas o Benfica que está à frente do FC Porto, o Braga também está. E, portanto, ao FC Porto não basta recuperar quatro pontos para uma destas equipas, porque ninguém está à espera que o Braga e o Benfica percam pontos de forma simultânea. Repito que, nesta altura, os grandes candidatos ao título são o Braga e o Benfica. São as melhores equipas do campeonato, até prova em contrário. E como eu estou feliz em ver o Braga assim.
- Quem é, na sua opinião, o melhor jogador de sempre? E entre os que estão em actividade?
Francisco Alves Porto, 26 anos, Lisboa, Benfica
- O Pelé foi o melhor jogador de sempre, em todo o Mundo. Em Portugal, destaco o Eusébio, o melhor de sempre. Na actualidade, o Messi foi eleito o melhor do Mundo, com justiça, mas acho que o Ronaldo, se não se tem lesionado, teria ganho de novo o prémio. E também gostava de reforçar a minha admiração pelo Figo. Pela sua qualidade como jogador, mas especialmente pela sua classe global. Mesmo depois de ter deixado de jogar, mantém a classe. No campeonato português, para mim o melhor jogador da Liga Sagres é o Alan, do Braga.
- Qual o jogador que lançou que o surpreendeu mais? e pela negativa?
José Pedro Pinto, Algés
- Todos os jogadores que ajudei a lançar no futebol profissional, não me surpreenderam verdadeiramente, porque senti que havia esse espaço para eles no futebol. O Ricardo Rocha, o Quim, o Hugo Almeida, o Pepe, o Tiago, não me surpreenderam. Eu apostei neles, eles apostaram em si próprios, mas tinham o talento e as condições para ser grandes futebolistas, como são. Pela negativa, o jogador que me provocou uma dor muito grande, foi o Rui Esteves. Um dos maiores talentos que conheci até hoje e, no entanto, não chegou ao topo. Não sei porquê, mas o Rui desperdiçou talento, imenso talento. Um grande talento, um grande amigo, que eu gostaria de ter visto tornar-se num grande jogador.
- Qual é para si o melhor jogador de cada um dos três grandes, e qual o melhor do campeonato português?
David Alves, 19 anos, Benfica, Lisboa.
- No FC Porto destaco o Bruno Alves, pela sua importância na equipa e pela sua liderança. Eu gosto de jogadores com liderança, são diferentes e um conforto para um treinador. No Benfica, claro, o Saviola, um jogador fenomenal. No Sporting, gostaria de elogiar dois jogadores. O João Moutinho, porque tem qualidade, muita qualidade e porque é uma máquina de alto rendimento. E também o Miguel Veloso, que é um jogador que aprecio bastante e que parece estar no caminho certo. Muito bom jogador.
- Se tivesse de escolher o melhor onze da sua carreira como treinador, que jogadores escolheria?
Fernando Carlos Marques, 40 anos, Lisboa, Sporting
- Quim (Helton); Zé Carlos, Pepe, Ricardo Rocha e Desmarets; Nivaldo, Tiago e Nuno Assis; Alan, Hugo Almeida e Karoglan.
- Que esperar da Selecção Nacional no Mundial? Quem poderá substituir Pepe caso este não recupere a tempo?
Alcino Furtado, Aarhus (Dinamarca), 30 anos, Sporting
- Acho que a selecção nacional, numa competição curta e com os jogadores em boa forma, pode conseguir um grande resultado. Temos alguns dos jogadores mais disputados do Mundo, temos um bom treinador e temos a situação perfeita para ficar na história do futebol. Em relação ao Pepe, acredito e desejo que a sua recuperação lhe permita estar no Mundial. O Pepe merece, é um grande jogador e uma pessoa incrível. Se pensarmos em alternativas ao Pepe, considero que elas existem e que o seleccionador vai saber escolhê-las.
- Quais os parâmetros mais importantes que procura num jogador e qual acha que é a melhor maneira para mim, um jovem atleta, de alcançar um futuro risonho no mundo do futebol?
Tiago Pedroso, 14 anos, Coimbra, Benfica
- Num jogador, valorizo, acima de tudo a inteligência. Claro, o talento chega primeiro, senão não pode ser jogador de futebol. Mas é importante ser inteligente. É o que marca a diferença entre os grandes jogadores e os bons jogadores. A técnica é importante, é a base, mas a inteligência é o recheio. Um jogador inteligente antecipa as jogadas e antecipa os movimentos. Os seus e os dos outros. Permite-lhe conhecer melhor o jogo, ajuda-o na tomada de decisões. Eu, como treinador, estimulo cada vez mais os jogadores a tomar decisões nos jogos, porque, durante um jogo de futebol, um jogador tem de tomar dezenas e dezenas de decisões. E a inteligência joga um papel fulcral, porque permite ao jogador chegar às melhores decisões. O melhor jogador é o que decide melhor. E por isso, gostaria de lhe dar um conselho. Invista nos estudos, aprenda, seja inteligente. Treine a sua perícia, treina a técnica, faça do treino a sua hora feliz do dia, mas não deixe de treinar a inteligência. E isso apenas se faz, investindo nos estudos. É o que eu aconselho a um jovem que pretenda ser um bom jogador, melhor do que os outros. A diferença faz-se no campo, mas começa a construir-se fora dele.
- Alguma vez teve problemas muito graves com jogadores da equipa que treinava ou com os membros técnicos? O que é que aconteceu?
Joaquim Seabra, 57 anos, Leixões, Lisboa
- Nunca tive grandes problemas, porque a liderança é isso, é submeter, sem dúvidas, os jogadores a essa liderança, mas levando-os a aceitá-la. Eu acredito muito em lideranças partilhadas, mas com limites impostos, porque entendo que uma liderança não se partilha com grupos tão heterogéneos de pessoas. Existem outras formas de envolver os jogadores nas decisões, escutando-os. É importante para um treinador escutar os jogadores, porque isso permite-nos conhecê-los melhor e actuar, muitas vezes, individualmente, na resolução de algumas situações. Mas a minha liderança não se discute. No Vitória de Guimarães, um jogador do plantel pisou o risco e perante uma situação achou que podia resolver um problema de balneário, fazendo queixas ao presidente. Não jogou mais comigo.
«Não foi Portugal que inventou a moda dos naturalizados» - Manuel CajudaComo deve um treinador reagir num jogo que parece perdido? Portugal deve limitar o número de estrangeiros na Liga? Os leitores de A BOLA.pt perguntaram, Manuel Cajuda respondeu.
- Em toda a sua carreira tem alguma palestra especial que guarda religiosamente no seu baú de memórias? Qual e porque motivo?
Nilton Jorge Mota, 33 anos, Porto, Benfica
- A palestra que fiz, em Basileia, antes do jogo com o clube local, da segunda mão da pré-eliminatória da Liga dos Campeões. No dia anterior, várias dezenas de adeptos do Vitória tinham estado à porta do hotel onde estava a equipa a estagiar e vi-me confrontado com histórias lindas de amor à camisola. Lembrei-me desses adeptos no dia do jogo e eles inspiraram a minha palestra aos jogadores. Senti que era uma grande oportunidade de fazermos qualquer coisa diferente nas nossas carreiras. Era o acesso à Liga dos Campeões. E senti os jogadores completamente agarrados. Lembro-me de uma frase que me disseram, após a palestra: «Mister, depois do que eu ouvi, até eu me sinto capaz de ir para o campo e jogar». É verdade, sentia-se no balneário uma atmosfera diferente. Acho que consegui entrar na cabeça deles e encaminhei-os para um nível de confiança extraordinário. Acho que tive a capacidade de fazer com que os jogadores do Vitória se sentissem os melhores e mais capazes do Mundo. Infelizmente, fomos vítimas da batota de um senhor árbitro auxiliar, que decidiu entregar a eliminatória ao clube suíço.
Está num jogo com um grande e encontra-se a perder por 2-0. Como poderá motivar a equipa para ir pelo menos à procura do empate? O que diria aos jogadores?
Rodolfo Fernandes, 25 anos, Oeiras
- Depende de muitas coisas. O primeiro impulso é ir atrás do resultado e da possibilidade de vencê-lo, ou pelo menos, de não o perder. Mas, também pode ser mais importante começar a pensar no jogo seguinte. E se for assim, não forço e tento controlar os danos. Porque, a perder por 2-0, enfrentando uma grande equipa, existe o risco de uma derrota ainda mais pesada e que pode ter efeitos devastadores na motivação dos jogadores. O pior que pode acontecer a um treinador é ter jogadores pouco motivados ou pouco confiantes. O futebol é um jogo, mas tem muito de estratégia. Como digo, depende de como sentimos os nossos jogadores, de como sentimos os adversários, em certas situações mais vale começar a pensar no jogo seguinte.
- Qual a sua posição em relação aos jogadores naturalizados representarem a selecção?
Tiago Marcelos, 19 anos, Sporting, Seixal
- Acho que são um mal necessário. Se as outras selecções fazem o mesmo, porque razão Portugal teria de ser diferente» Pessoalmente, não gosto de jogadores naturalizados nas selecções, porque descaracterizam um valor importante, que é o da nacionalidade e da identificação do jogador com o país que representa. Porém, não foi Portugal que inventou esta moda. Porque isto é uma moda e eu acho que a FIFA, mais tarde ou mais cedo vai ter de intervir. E a nossa selecção tem de competir em condições de igualdade com as outras. Mas não gosto de ver jogadores de outras nacionalidades na selecção portuguesa.
- Acha que deve ser feito algo para limitar a contratação de jogadores estrangeiros para a liga portuguesa?
João Ribeiro, 21 anos, Eslovénia, Benfica
- Acho que sim, mas também acho que é difícil. A FIFA está a tentar fazer o mesmo, a nível mundial, e não consegue, como pode Portugal criar essas limitações? Além do mais, não me parece que os dirigentes em Portugal, à excepção do presidente do Sindicato dos Jogadores, estejam seriamente preocupados com isso. Mas o jogador português devia ser defendido, até como uma espécie em vias de extinção, se tudo continua como actualmente, com os clubes virados para a importação de jogadores. Há medidas propostas mas ninguém faz nada, até porque isso não seria interessante para outros negócios. O Sporting é um exemplo do que podia ser feito pelos outros clubes, mas isso criou-lhe uma situação de desvantagem competitiva em relação aos outros candidatos. Temo que o Sporting abandone a sua matriz de aproveitamento do talento nacional, porque tem sido um farol importante para quem acredita que o futuro do nosso futebol passa pelo jogador português.
- Que treinador adversário mais surpreendeu tacticamente num jogo? Em qual? E ganhou ou perdeu?
Rodrigo Eduardo, 14 anos, Lisboa, Sporting
- Nunca me senti verdadeiramente surpreendido tacticamente. O futebol é muito mais do que a táctica. Não há donos da táctica, ninguém discute a sua paternidade. Senti-me, em alguns jogos, ultrapassado pelos acontecimentos, mas não me senti surpreendido tacticamente.
- Qual o jogo que o emocionou mais e qual o jogo que o deixou mais triste?
Nuno Guedes, 33 anos, Sintra, Benfica
- Não específico um jogo, mas sim uma situação. O que mais me emocionou, em toda a minha carreira, foi o público do Vitória. A minha paixão pelo clube vem daí. Fabuloso. Não sou vitoriano por influência dos dirigentes. Sou vitoriano devido aos seus adeptos. Ninguém fica indiferente a um clube que tem estes adeptos. O jogo que me deixou mais triste foi o de Basileia. Porque fomos roubados e porque o Vitória merecia ter ido à Champions. A própria UEFA devia olhar para o Vitória como um bom exemplo da relação que deve existir entre adeptos e clubes. Custou-me imenso esse jogo, passei várias noites sem dormir. Foi a única ocasião, em toda a minha carreira, em que senti que um acontecimento desportivo afectou a minha lucidez. Durante uma semana, sinto que não fui o mesmo treinador, porque me faltava força interior para lutar contra a desilusão e o sofrimento dos adeptos do Vitória.